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terça-feira, 3 de agosto de 2010

“Tem coisas que a gente sente e não consegue explicar…”

Shangri-lá  - Pontal do Paraná - julho de 2010

Como entender? Como explicar? Há momentos que procurar uma explicação torna-se uma luta vã… como conceituar aquilo que só podemos sentir? O que sentimos é melhor deixar para a esfera dos sentimentos, deixar para o subjetivismo, para o intimismo. Há coisas que nasceram apenas para ser sentidas, não há como explicar…

Como explicar a felicidade que chega sorrateira em um momento no qual as nuvens tumultuavam nossa existência? Como explicar o poder de um sorriso? A transformação que um simples olhar pode causar em uma pessoa? Apesar da impossibilidade de haver olhares simples, todos são complexos, cheios de significados e significantes, cheios de mensagens ocultas e explícitas, cheios de nós mesmos…

Como explicar o amor que nasce, que surge, que vai, que vem, que altera cursos de vidas, que altera caminhos, que mexe com o íntimo dos seres enamorados? Como explicar a tristeza? A solidão? Como explicar a dor que causa a distância, a que chamamos de saudade?

Saudade… personificação da ausência sentida. Com pode um sentimento se tornar numa dor tão concreta, tão física, tão presente? A saudade dói. É uma dor intensa, que cala fundo na alma, que invade sem dó nem piedade… saudade é um paradoxo, pois só existe quando estamos repletos e é caracterizada por um imenso vazio.

Saudade é ser antes de ter, é ter e saber que tem, é ser e saber-se completo, mesmo sentindo-se pela metade, saudade é um que sempre é dois, ou mesmo dois que se transformam em um. Saudade é estar e faltar.

Saudade é um caminho trilhado em companhia, mesmo quando se está só.

Por: Edi Souza

sábado, 24 de abril de 2010

Pátria minha tão pobrinha II


Hoje posto um texto especial, como grande parte da produção literária deste grande, imenso poeta: Vinícius de Moraes. Uma grande homenagem a nossa pátria tão sofrida... com a beleza dos versos do eterno Poetinha.

Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Mais uma vez


Hoje resolvi postar uma letra de uma das maiores intérpretes brasileiras e uma grande compositora. Uma das grandes do cenário cultural brasileiro, um ícone da cultura deste país. Marisa Monte. Sua voz, ritmo, melodia e composições nos remetem a sentimentos ocultos dentro de nós mesmos. Suas canções são retratos da vida, são amores, são paixões, são vida… falar de Marisa é retratar uma artista completa, uma mulher forte, inteligente, sensível… uma autêntica brasileira.

Esta música em especial, fala da distância entre as pessoas, das vezes que precisamos nos ausentar, precisamos viajar, sair, ir para longe e se torna impossível levar quem queremos ao nosso lado. Isso nos traz saudade, vontade de largar o trabalho, a vida e voltar, sempre voltar, mas sempre precisamos continuar a jornada, o caminho… além disso, aborda a saudade. Saudade é uma palavra linda, apenas existente na língua portuguesa, ou seja, apenas nós, brasileiros, conseguimos colocar em palavras a infinidade de coisas a miscelânea, a apoteose de sentimentos que é a saudade. Nossas músicas falam em saudade, nossos poemas também… somos feitos de saudades… apreciemos a música da inigualável Marisa Monte:

Mais uma vez

Mais uma vez eu vou te deixar
Mas eu volto logo pra te ver
Vou com saudades no meu coração

Mando notícias de algum lugar...

Eu sei, que muitas vezes te fiz esperar demais
Mas mesmo na distância o meu pensamento voa longe demais
Fico imaginando você sofrendo na solidão

Quando eu vou deitar penso em você em seu quarto dormindo

Longe de você meu bem, longe da alegria
Longe de você meu bem, longe do nosso lar....

Mais uma vez eu vou te deixar
Mas eu volto logo pra te ver
To com saudades no meu coração

Mando notícias de algum lugar...

Eu sei, que muitas vezes te fiz esperar de mais
Mas mesmo na distância o meu pensamento voa longe demais
Fico imaginando você sofrendo na solidão

Quando eu vou deitar penso em você em seu quarto dormindo

Longe de você meu bem, longe da alegria
Longe de você meu bem, longe do nosso lar…

Mais uma vez...

Por: Marisa Monte

domingo, 5 de abril de 2009

Crônica do amor ou da solidão

O amor nasce não se sabe de onde nem se pode precisar como. Apenas um toque de olhar e algo, inesperadamente, acontece e, muitas vezes, vem para modificar a vida de duas pessoas, transformando-as em um único ser, em dois mundos que passam a compartilhar sonhos, esperanças, alegrias, tristezas, decepções e muitos momentos recheados de ternura, compreensão e afeto… assim ocorreu na vida daquela moça. E neste momento ela se encontrava imersa em pensamentos sobre esta relação. Pensamentos soltos que versavam sobre tudo que sentia, todas as formas de querer estar perto e não poder, todas as formas de demonstrar o infinito amor que sentia… e assim começou a escrever. A colocar no papel algo parecido com o que ia pelo coração e inundava a sua alma, precisava fazer com que estas palavras chegassem a quem ela verdadeiramente amava, precisava sentir a distância se esvaindo, diminuindo, precisava sentir a proximidade. E por isso, escreveu:
“Saudade dos momentos, das borboletas soltas pelo quarto, das noites ao teu lado, de você. Saudade de te sentir inteiramente ao meu lado e ao mesmo tempo me sentir em você e você em mim. Saudade de estar contigo em todos os caminhos, em dividir risos, abraços, beijos infindos. Saudade. Uma palavra tão simples que nos traz um sentimento tão forte, tão intenso, tão desesperador, tão… ausência. Já não sei se ausência minha ou tua, mas uma ausência real. Não sei em que momento, em que ocasião, o que sinto por você se tornou tão meu, tão nosso, só sei que quero permanecer sentindo desta forma, mesmo sufocada por esta saudade, eu sei que você está comigo, eu sinto você comigo e isso me faz forte, me faz querer viver todo nosso amor na intensidade em que ele se apresenta.
Só falar que eu te amo, já parece não dizer tudo, só escrever sobre você parece não ser suficiente para apaziguar a distância madrasta e ingrata que separa nossos corpos, que nos faz distantes, mas ao mesmo tempo nos aproxima. Essa saudade minha e tua é o que temos além do amor. É o que nos lembra minuto a minuto de aproveitarmos intensamente cada instante que desfrutamos lado a lado, é o que nos faz viver o mais ínfimo momento e torná-lo eterno. É o que nos faz perceber a importância de pequenos momentos para construirmos as grandes coisas: os grandes planos, os grandes momentos, os grandes sonhos… planos… eles são muitos, e a certeza de podermos realizá-los me dá alegria, me faz sentir ao teu lado, me dá força e impele a buscar você mais e mais, dia após dia”.
Com uma lágrima escorrendo no canto dos olhos ela deixou-se ficar observando as palavras que havia escrito e permaneceu em silêncio, um silêncio profundo, daqueles que vêm de dentro de nós, que poucas coisas podem preencher…
Por: Edi Souza

sexta-feira, 27 de março de 2009

Bom, Ruim, Assim Assim

Quer saber de uma coisa? Tudo pode ser bom, ruim e principalmente assim assim
Tudo ao mesmo tempo ou não, e não necessariamente nessa ordem
Bom é chegar na praia à tardinha, anúncio de pôr de sol, a água de ondas mansinhas
Jogar bola na espuma e sob o céu encaixa como se fora Tafaréu.
É bom também quando começa a chover
E as gotas fazem cócegas na superfície do mar
Como se um cardume infinito prometesse matar a fome
De todo o Vidigal, Rocinha, Cidade de Deus e Vigário Geral.
Ruim é lembrar daquele amigo que de prancha na mão
Morreu de um beijo roubado de um raio, da lembrança a correria,
O medo... o medo... medo é bom, ruim é o medo de ter medo!
Bom voltar trocar chuva por chope e passar atrás da pelada
A bola vai pra fora e como na crônica de Rubem Braga sobra pra você
Que mata no peito faz embaixadinha e devolve redondo... num chute perfeito
Ruim é a fisgada na coxa sair mancando disfarçadamente...
A vergonha de estar decadente não é ruim, ruim é o orgulho
que se nega a reconhecer a decadência.
É bom a cidade estranha em que você nunca esteve e sabe que nunca mais vai voltar
E nesse lugar você tem uma obrigação sem graça que cumpre com estilo e precisão
Traçando um dia perfeito no arco do tempo
Quando cai a noite é bom tomar um banho e sob o chuveiro é bom sentir saudade,
Ruim é não ter saudade, e como é bom sair sem direção pelas ruas da cidade
Pensando no que você fez da sua vida e no que a vida fez em você
Bom é sonhar, realizar não é tão bom, mas ruim mesmo é não realizar
O fim de um grande amor é muito, muito ruim, um grande amor não tem fim!
Bom é amar, ruim é amar...
Bom é encarar a vida com fantasia.
Quando um poeta desaparece é bom colocar chapéu de Bogar que tudo pode solucionar...
Ruim é encontrar o precipício, morrer não deve ser tão ruim assim...
E pode ser bom falar sobre bom e ruim, e pode ser pior assim assim ... bom!
Autor: Pedro Bial