Mostrando postagens com marcador amor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amor. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Aos namorados do Brasil


Nada melhor que começar as postagem deste ano com toques de literatura... e para trazer bons ares, vamos logo com a grande poeta Carlos Drummond de Andrade, que soube como poucos tratar de temas cotidianos.

Dai-me, Senhor, assistência técnica
para eu falar aos namorados do Brasil.
Será que namorado algum escuta alguém?
Adianta falar a namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
que eles não saibam, eles que transformam
a sabedoria universal em divino esquecimento?
Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,
quando perdem os olhos
para toda paisagem ,
perdem os ouvidos
para toda melodia
e só vêem, só escutam
melodia e paisagem de sua própria fabricação?

Cegos, surdos, mudos - felizes! - são os namorados
enquanto namorados. Antes, depois
são gente como a gente, no pedestre dia-a-dia.
Mas quem foi namorado sabe que outra vez
voltará à sublime invalidez
que é signo de perfeição interior.
Namorado é o ser fora do tempo,
fora de obrigação e CPF,
ISS, IFP, PASEP,INPS.

Os códigos, desarmados, retrocedem
de sua porta, as multas envergonham-se
de alvejá-lo, as guerras, os tratados
internacionais encolhem o rabo
diante dele, em volta dele. O tempo,
afiando sem pausa a sua foice,
espera que o namorado desnamore
para sempre.
Mas nascem todo dia namorados
novos, renovados, inovantes,
e ninguém ganha ou perde essa batalha.

Pois namorar é destino dos humanos,
destino que regula
nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.
E quem vive, atenção:
cumpra sua obrigação de namorar,
sob pena de viver apenas na aparência.
De ser o seu cadáver itinerante.
De não ser. De estar, e nem estar.

O problema, Senhor, é como aprender, como exercer
a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,
e vai além de toda universidade.
Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.
E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,
por obra e graça de sua namorada.

A mulher antes e depois da Bíblia
é pois enciclopédia natural
ciência infusa, inconciente, infensa a testes,
fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.
Há que aprender com as mulheres
as finezas finíssimas do namoro.
O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre
três vezes ignorante de seu coração
e da maneira de usá-lo.

Só a mulher (como explicar?)
entende certas coisas
que não são para entender. São para aspirar
como essência, ou nem assim. Elas aspiram
o segredo do mundo.

Há homens que se cansam depressa de namorar,
outros que são infiéis à namorada.
Pobre de quem não aprendeu direito,
ai de quem nunca estará maduro para aprender,
triste de quem não merecia, não merece namorar.

Pois namorar não é só juntar duas atrações
no velho estilo ou no moderno estilo,
com arrepios, murmúrios, silêncios,
caminhadas, jantares, gravações,
fins-de-semana, o carro à toda ou a 80,
lancha, piscina, dia-dos-namorados,
foto colorida, filme adoidado,,
rápido motel onde os espelhos
não guardam beijo e alma de ninguém.

Namorar é o sentido absoluto
que se esconde no gesto muito simples,
não intencional, nunca previsto,
e dá ao gesto a cor do amanhecer,
para ficar durando, perdurando,
som de cristal na concha
ou no infinito.

Namorar é além do beijo e da sintaxe,
não depende de estado ou condição.
Ser duplicado, ser complexo,
que em si mesmo se mira e se desdobra,
o namorado, a namorada
não são aquelas mesmas criaturas
que cruzamos na rua.
São outras, são estrelas remotíssimas,
fora de qualquer sistema ou situação.
A limitação terrestre, que os persegue,
tenta cobrar (inveja)
o terrível imposto de passagem:
"Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!
Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada
na sola dos sapatos..."
Ou senão:
"Desiste! Foge! Esquece!"
E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.
Fogem os covardes.
Que importa? A cada hora nascem
outros namorados para a novidade
da antiga experiência.
E inauguram cada manhã
(namoramor)
o velho, velho mundo renovado.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

“Só a literatura salva”


“- Tomara que acorde em tormentos! - bradou ele com pavorosa veemência, batendo com o pé no chão e arquejando num paroxismo de insensato furor. - Então ela mentiu até ao fim! Onde estará? Não há de estar lá, no céu... nem se acabou... onde estará? Ah, disseste que não te importavas com o que eu sofresse... Pois faço uma oração... hei de repeti-la até que minha língua se paralise... Catherine Earnshaw, praza a Deus que não tenha descanso enquanto eu viver! Disseste que eu te matei... pois persegue-me agora com o teu fantasma!... Sei que a vítima persegue o seu assassino. E sei que andam almas penadas pela terra... Fica comigo para sempre... toma qualquer forma... enlouquece-me! Mas não me deixes neste abismo onde não te possa encontrar! Oh, Senhor! É inexprimível! Não posso viver sem a minha vida! Não posso viver sem a minha alma!"

WUTHERING HEIGHTS, O Morro dos Ventos Uivantes - Emily Brontë

Como diria uma pessoa especial, alguém intelectualmente interessante, “só a literatura salva” e eu completaria com a afirmação que: por meio da literatura podemos encontrar grandes respostas. Ela tem a faculdade intrínseca de desanuviar, dar luz ao conhecimento, elucidar questões insondáveis, trazer inúmeras respostas a dúvidas, mas também tem o poder de trazer mais e mais perguntas, argumentações, indagações da realidade, do visto e não visto, do dito e não dito, do real e irreal, do concreto e do imaginário… nas páginas dos livros é possível encontrar a nós mesmos e identificar emoções, sentimentos… o principal deles é o amor. Para se conhecer o amor, identificar a força deste sentimento supremo é preciso sentir, amar, mas a literatura nos dá mostras de todos os preâmbulos de Eros, pois belas e intensas histórias de amor estão imortalizadas nos escritos de Shakespeare, Camões, Machado de Assis, Emily Brontë… são muitos exemplos, mas hoje vamos nos ater a força da literatura feminina.

Emily Brontë foi uma escritora britânica, a qual viveu isolada da sociedade, distanciada das mazelas sociais, no entanto, deu ao mundo um presente: o livro O Morro dos Ventos Uivantes. Trata-se de uma narrativa brilhante em que se observa toda a dimensão do amor. Um amor que atravessa o tempo, a vida e a morte… um amor verdadeiro. A força deste amor é facilmente percebida no trecho supracitado, momento em que Heathcliff pronuncia a grandeza de seu sentimento, algo maior que ele e verbaliza de maneira veemente o que seria o mundo para ele sem a presença de Catherine Earnshaw, a sua amada.

Os seres humanos, quando amam de verdade e de repente se veem sem a presença da pessoa amada, são tomados pelo sofrimento, pela dor… a falta de perspectiva de norte, de direção, de alento. De uma hora para outra o mundo se transforma em algo sombrio, vazio, um abismo sem fim…

“Só a literatura salva”.

Por: Edi Souza

domingo, 13 de setembro de 2009

A tristeza e a angústia


Notas tristes, notas solitárias e notas cheias de emoção contida, uma lágrima derramada no escuro de uma solidão que se agiganta dentro de um coração que se supõe de pedra. A música daquele momento soava triste, mas tão triste quanto o ser dilacerado que a escutava, mas era preciso mesmo assim ser forte, mesmo diante da dor, do sofrimento, da busca de si… afinal era apenas o retrato do ser humano, era apenas o distanciamento, a angústia, a espera… era o amor que ia e que vinha.

A solidão é produto de tudo que as próprias pessoas fogem e na verdade correm para ela… a solidão é assim, amiga e inimiga, temida e procurada, companheira e ser dilacerante. A solidão é a essência do ser humano. Será que todas as pessoas já repararam o quanto o ser humano é só, o quanto o espectro da solidão nos assombra? Será que alguém pode dizer que não vive sozinho? Buscamos aventuras, companhia, festas, amores, tudo para preencher o espaço imenso que cada pessoa traz dentro de si e irreparavelmente se torna maior a cada dia, se torna mais profundo, mas torturante… no meio da busca pela plenitude encontramos pessoas as quais julgamos capazes de preencher de nos dar alento, bálsamo para a alma, abrigo, proteção e no final encontramo-nos mais sozinhos, mais solitários, mais “casmurros”. O remédio para o mal que aflige nossa alma se mostra ineficiente, pois é responsabilidade demais dar a outros a missão de nos trazer a tão falada e sonhada felicidade; não cabe a ninguém nos dar felicidade, cabe a nós mesmos tentarmos apenas contornar o vazio, ou fazer do vazio algo produtivo, algo que encontre respaldo criativo, resgate nossa alma, nosso sonho.

No entanto as notas da música erudita continuavam tristes… ecoando numa alma vazia, numa alma quebrada, numa alma que se julgava sem vida, numa alma que não via eco… assim se encontrava aquela jovem após procurar e não encontrar, após bater e ninguém abrir, após falar e ninguém ouvir…

Aquele era o retrato de uma pessoa que sempre esbanjara força, no entanto, naquele momento, toda fortaleza e autoconfiança contrastavam com a dor que calava fundo, que se mostrava de uma forma singular, apesar de jovem, aparentemente não acreditava mais em fatores que muitos julgam fundamentais na vida, dentre os quais reinava absoluto o amor. Para ela o amor, esse tão falado e idolatrado sentimento dentre tantos, hoje não passava de uma forma de acentuar ainda mais toda a angústia do ser humano.

Aquela moça no auge de seus 23 anos, sempre tão alegre, obstinada, determinada, conhecera enfim o dilacerante braço e o toque amargo de um amor desfeito. E ela pensava:

- “Não posso acreditar nesta dor, não posso acreditar que fui deliberadamente abandonada desta forma…”

E hora ou outra uma nova lágrima rolava pela dor da perda definitiva, não se tratava apenas de um amor desfeito era muito mais que isso… era uma vida desfeita, era um final abrupto… a pessoa a quem a garota julgou que poderia definitivamente mudar a sua vida, transformar a sua existência em algo mais bonito, repleta de prazer, de vida, um caminho permeado por flores e caminhado junto, não havendo espaço para mais solidão. Ela sempre se indagara sobre o compartilhar o caminho. Quão gostosa e magnífica é a ideia ou a utopia de compartilhar, de dividir para somar, de se entregar para construir…

E agora ela acreditava que realmente tudo não passara de uma ilusão, de um sonho que se acabara, de uma fantasia distante dela… conhecer a pessoa de nossos sonhos… ela havia conhecido e acreditava nunca mais poder sentir a mesma coisa por outra pessoa…

Seu amor, aquele ser tão cheio de vida, de sentimentos, de cuidados para com ela, a completava, espantava a solidão, no entanto a felicidade nunca pode estar completa e quando achamos que ela está inteira, que a vivemos em sua plenitude, vem o destino e nos mostra de forma cruel a inegável e dolorosa condição humana, nos joga num mundo de realidade, num universo real, sólido, frio, concreto. Assim foi para ela, no momento em que se sentia mais protegida, acolhida, completa, veio a mão do destino e de forma impiedosa tirou a esperança de ser feliz para sempre… deixou um gosto acre na boca, uma amargura e a inevitável solidão.

Nos momentos de amor vividos ao lado do “grande amor da sua vida”, a garota não podia imaginar o que estaria por acontecer, no entanto a tragédia acomete a todos impiedosamente. E com as suas asas negras estabelecera-se sobre ambos, sobre os jovens que pronunciavam juras eternas de amor, respeito e compreensão. O lampejo de felicidade que ambos viveram foi um vislumbre momentâneo, uma réstia do que poderia ter sido, do que seria ser feliz completamente.

Mas a morte chega sorrateiramente, de onde ninguém espera, ninguém sabe, ninguém vê… muitas vezes sem avisos, sem preâmbulos, apenas chega e destrói, tira a esperança e fé, todos os sentimentos bons que porventura existiram. E ela chegou assim… sem qualquer tipo de aviso, sem dar tempo para que a moça se preparasse.

Eles se conheceram e viveram por um longo e delicioso período de quatro anos, inúmeros momentos de extrema felicidade como superaram tantos outros de tensão, venceram obstáculos, crises, pois não há relação perfeita, não há relação sem atritos, sem desavenças, sem ciúmes, sem mágoa. Aquela tarde fria e chuvosa de meados do mês de agosto parecia ao mesmo tempo tão perto e tão distante. Fora a tarde em que ambos se conheceram e o exato momento em que brotou entre eles um sentimento diferente, um entendimento, uma compreensão, um falar mudo, um toque de olhar. Assim nasceu um relacionamento visto por tantas pessoas como “aquele que nasceu para ser para sempre”, “aquele que nada nem ninguém pode separar”, mas não há nada que realmente dure para sempre, nada que o tempo não possa transformar, nada que o destino não possa tocar com suas mãos frias… e assim foi.

As carícias, as juras, os momentos de amor, a felicidade, tudo se transformou em tristeza numa fração de segundo, num erro fatal, numa notícia, num telefonema…

No meio de um verão repleto de planos um dos envolvidos nesses projetos de felicidade eterna saiu de cena, deixou que se fechassem as cortinas e se abrissem novamente para um monólogo, no entanto a garota não queria monólogos ela queria o seu amor para contracenar… mas percebeu que não era um simples ensaio e não havia como reconstruir a cena. Numa tarde quente, a garota de riso fácil nem percebeu que o seu sorriso congelara, seu corpo todo congelara. Estava absorta em pensamentos no exato momento em que o telefone tocou tirando-a de seus devaneios pueris. Atendeu-o sem vontade, mas como era uma singularidade sua sorriu ao pronunciar o “alô”, porém à medida que ouvia o interlocutor o sorriso desaparecia de sua face, a qual se obscurecia e o olhar se tornava profundo, cheio de dor, de lágrimas, de desespero. Não podia acreditar no que chegava aos seus ouvidos, pensava que só podiam estar brincando e ela não estava gostando nem um pouco daquela brincadeira. Os deuses estão rindo… e as pernas da garota estavam bambas, parecia que perderia o controle no próximo segundo, por isso se segurou na ponta da mesa que apoiava o telefone e se deixou baixar lentamente, arqueando os joelhos até que chegou ao chão permanecendo ajoelhada por uns segundos e, na sequência, o corpo continuou indo em direção ao chão, sentou. Apoiou o telefone na pena, ficou olhando fixamente para o aparelho e subitamente uma onda incontrolável de lágrimas aflorou e ela deu vazão ao que sentia, chorou descontroladamente, sozinha no chão do apartamento em que se encontrava. Ficou assim por um longo tempo e quando parou um pouco só teve forças para olhar o telefone que continuava em suas mãos, olhou por longos segundos que se transformaram em minutos e sentiu muita raiva… da vida, das pessoas, da morte… arremessou o telefone contra a parede espatifando-o completamente, mas a voz continuava em sua cabeça:

“- Houve um acidente, infelizmente não pudemos fazer nada, encontramos seus dados dentro do automóvel, por isso entramos em contato…foi morte instantânea… não houve mais nada a ser feito quando chegamos ao local… a velocidade estava acima do permitido… sentimos muito, moça.”

“Sentimos muito…, que frase idiota” pensou a garota, ninguém sente nada, todos querem se ver livres da dor, se afastar, só quem está próximo é que pode sentir muito.”

Naquela tarde de verão, um descuido fez com que uma pessoa que iria encontrar a namorada exagerasse na velocidade e ao tentar fazer uma curva, aconteceu o acidente fatal… uma colisão com um automóvel que vinha na direção oposta tirou a vida do rapaz e fez nascer uma nova pessoa, uma nova versão da garota que via sua felicidade ter sido deixada também naquela curva.

Após a notícia ela se sentiu infinitamente sozinha, sem alento, sem nada. As pessoas chegavam e saíam com seus olhares baixos e cheios de piedade, mas ela não via nada, estava submersa em sua própria tristeza. Com um misto de ódio e vontade de sumir, com vontade de sair daquele local e ir para bem longe onde ninguém a conhecia, mas não fez nada apenas se deixou ficar. Após a dor não veio mais nada, apenas o vazio e a certeza que ele não estaria mais em lugar algum no qual procurasse. Ela procurou por um longo tempo, mas logo deixou de esperar, de procurar e voltar a sobreviver, a dor era insuportável em muitos momentos, mas não podia abandonar a vida, no entanto sentia que a vida a abandonara. Fechou-se em si e abandonou também a vida… viver dói, morrer não dói, morrer é alívio… e encerramento de angústias. Apenas um pensamento lhe aflorava à mente a cada dia que deitava em sua cama:

“Sei que terei a infelicidade de abrir os olhos amanhã, mas até quando?”

E olhava em todos os cantos, ninguém via, ninguém percebia a dor, o sofrimento alheio, todos são indiferentes… indiferentes ao que o outro está sentindo, ao que se manifesta na alma das pessoas.

E a música continuava torturante, mas parecia que era a única coisa que a entendia, só a arte podia entender e manifestar toda a dor que ela sentia, exaltava a falta de caminho, a ausência, a saudade, o amor ou a falta dele. Só a arte constrói. Só ela pode enxergar a realidade humana, a sensibilidade humana, nada mais, nada mais…

Por: Edi Souza

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Crônica do Amor


Hoje resolvi postar um texto de uma pessoa privilegiada, pois possui uma mente como poucas. Bom raciocínio, perceptividade e crítica social. Vamos ler Arnaldo Jabor.

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

Arnaldo Jabor

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Nem Tudo é Fácil


É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga... É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...
Mas, com certeza, nada é impossível...
Precisamos acreditar, ter fé e lutar para que não apenas sonhemos, mas também tornemos todos esses desejos REALIDADE!!!

Por: Glácia Daibert

terça-feira, 14 de abril de 2009

Palavras soltas, pensamentos desconexos


Conversas ao pé de ouvido são mais que conversas… são mundos compartilhados… são caminhos trilhados na agudeza e amplitude de um sentimento que une, que moldura. Um ser falou ao outro na singularidade de um momento de paixão, de sentimento, de busca, de mãos que se procuram, de bocas que se encontram para explodir na imensidão de um beijo tórrido, efusivo. O ciúme que queima é o mesmo que impele a cuidados. O olhar resvalador e sorrateiro de um dos amantes é o indício da análise petrificada da dor de se não cativar só para si a atenção. Olhar as ajudantes que passam… como arcam as partes profundas do ser e inebriam. Mas o olhar para a ajudante e para a atendente seria o mesmo olhar? A escuridão de um quarto de hotel seria a mesma escuridão silenciosa e tensa de uma palavra mal proferida num momento de estresse profundo: - Chega! Cinco letras capazes de cortar e emudecer os seres que se amam. O vento do mar que agita os cabelos é o mesmo vento suave que embala o choro num ônibus vazio e repleto de ausência, talvez o mesmo veículo repleto de amor e safadezas. O riso fácil das pessoas que se amam converge, conspira para uma felicidade maior, quem sabe a tal da felicidade clandestina tão introspectiva de Clarice Lispector. Uma felicidade clandestina em um relacionamento que muitas vezes se mostra clandestino. E talvez seja apenas o nosso destino, ou apenas o destino de quem se ama, pois o amor suporta tudo, suporta até os absurdos, suporta a sonoridade reinante num quarto que explode em risos recheados de sentidos: audição e olfato. A poesia também conspira. Ah, como conspira. Principalmente quando ela, a poesia, disfarçada apenas de literatura, é colocada como parâmetro para o amar ou não amar. Quem consegue amar mais que a literatura? O que sentiria um dos amantes ao ouvir: te amo mais que a própria literatura, mais que poesia. O som da poesia no universo, no reino dos livros soa muito mais agradável que o som de aviões que levantam voos… a propósito, aeroportos são paradoxos… neles há felicidade e tristeza, agonia, melancolia, mas também há a alegria. Cada momento é um descortinar diferente. A alegria da chegada, a ânsia da chegada é esquecida com a dor da partida, separação… os aviões são bons e maus, assim como tudo na vida. O Largo num feriado distante quase uniu, mas o destino é caprichoso e um passou pelo outro enquanto um desdenhava e outro fumava maconha, ou não! Que loucura!!! Agora dá para saber o que Drummond queria dizer quando afirmou: “eita vida besta, meu Deus!”, mas também podemos pensar: eita vida boa, meu Deus… tudo é válido, até o que não vale nada. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Por: Edi Souza

domingo, 5 de abril de 2009

Crônica do amor ou da solidão

O amor nasce não se sabe de onde nem se pode precisar como. Apenas um toque de olhar e algo, inesperadamente, acontece e, muitas vezes, vem para modificar a vida de duas pessoas, transformando-as em um único ser, em dois mundos que passam a compartilhar sonhos, esperanças, alegrias, tristezas, decepções e muitos momentos recheados de ternura, compreensão e afeto… assim ocorreu na vida daquela moça. E neste momento ela se encontrava imersa em pensamentos sobre esta relação. Pensamentos soltos que versavam sobre tudo que sentia, todas as formas de querer estar perto e não poder, todas as formas de demonstrar o infinito amor que sentia… e assim começou a escrever. A colocar no papel algo parecido com o que ia pelo coração e inundava a sua alma, precisava fazer com que estas palavras chegassem a quem ela verdadeiramente amava, precisava sentir a distância se esvaindo, diminuindo, precisava sentir a proximidade. E por isso, escreveu:
“Saudade dos momentos, das borboletas soltas pelo quarto, das noites ao teu lado, de você. Saudade de te sentir inteiramente ao meu lado e ao mesmo tempo me sentir em você e você em mim. Saudade de estar contigo em todos os caminhos, em dividir risos, abraços, beijos infindos. Saudade. Uma palavra tão simples que nos traz um sentimento tão forte, tão intenso, tão desesperador, tão… ausência. Já não sei se ausência minha ou tua, mas uma ausência real. Não sei em que momento, em que ocasião, o que sinto por você se tornou tão meu, tão nosso, só sei que quero permanecer sentindo desta forma, mesmo sufocada por esta saudade, eu sei que você está comigo, eu sinto você comigo e isso me faz forte, me faz querer viver todo nosso amor na intensidade em que ele se apresenta.
Só falar que eu te amo, já parece não dizer tudo, só escrever sobre você parece não ser suficiente para apaziguar a distância madrasta e ingrata que separa nossos corpos, que nos faz distantes, mas ao mesmo tempo nos aproxima. Essa saudade minha e tua é o que temos além do amor. É o que nos lembra minuto a minuto de aproveitarmos intensamente cada instante que desfrutamos lado a lado, é o que nos faz viver o mais ínfimo momento e torná-lo eterno. É o que nos faz perceber a importância de pequenos momentos para construirmos as grandes coisas: os grandes planos, os grandes momentos, os grandes sonhos… planos… eles são muitos, e a certeza de podermos realizá-los me dá alegria, me faz sentir ao teu lado, me dá força e impele a buscar você mais e mais, dia após dia”.
Com uma lágrima escorrendo no canto dos olhos ela deixou-se ficar observando as palavras que havia escrito e permaneceu em silêncio, um silêncio profundo, daqueles que vêm de dentro de nós, que poucas coisas podem preencher…
Por: Edi Souza

sexta-feira, 27 de março de 2009

Bom, Ruim, Assim Assim

Quer saber de uma coisa? Tudo pode ser bom, ruim e principalmente assim assim
Tudo ao mesmo tempo ou não, e não necessariamente nessa ordem
Bom é chegar na praia à tardinha, anúncio de pôr de sol, a água de ondas mansinhas
Jogar bola na espuma e sob o céu encaixa como se fora Tafaréu.
É bom também quando começa a chover
E as gotas fazem cócegas na superfície do mar
Como se um cardume infinito prometesse matar a fome
De todo o Vidigal, Rocinha, Cidade de Deus e Vigário Geral.
Ruim é lembrar daquele amigo que de prancha na mão
Morreu de um beijo roubado de um raio, da lembrança a correria,
O medo... o medo... medo é bom, ruim é o medo de ter medo!
Bom voltar trocar chuva por chope e passar atrás da pelada
A bola vai pra fora e como na crônica de Rubem Braga sobra pra você
Que mata no peito faz embaixadinha e devolve redondo... num chute perfeito
Ruim é a fisgada na coxa sair mancando disfarçadamente...
A vergonha de estar decadente não é ruim, ruim é o orgulho
que se nega a reconhecer a decadência.
É bom a cidade estranha em que você nunca esteve e sabe que nunca mais vai voltar
E nesse lugar você tem uma obrigação sem graça que cumpre com estilo e precisão
Traçando um dia perfeito no arco do tempo
Quando cai a noite é bom tomar um banho e sob o chuveiro é bom sentir saudade,
Ruim é não ter saudade, e como é bom sair sem direção pelas ruas da cidade
Pensando no que você fez da sua vida e no que a vida fez em você
Bom é sonhar, realizar não é tão bom, mas ruim mesmo é não realizar
O fim de um grande amor é muito, muito ruim, um grande amor não tem fim!
Bom é amar, ruim é amar...
Bom é encarar a vida com fantasia.
Quando um poeta desaparece é bom colocar chapéu de Bogar que tudo pode solucionar...
Ruim é encontrar o precipício, morrer não deve ser tão ruim assim...
E pode ser bom falar sobre bom e ruim, e pode ser pior assim assim ... bom!
Autor: Pedro Bial

segunda-feira, 16 de março de 2009

Por quem os sinos dobram


As pessoas entram e saem da nossa vida numa proporção assustadora. É interessante a forma como isso se processa. Ninguém se cruza por acaso. Cada pessoa tem uma importância em nossa vida, cada uma tem algo a acrescentar, seja um ensinamento, uma forma de encarar a vida, ou mesmo uma nova forma de sonhar ou ver um problema sob uma nova perspectiva. Cada ser que nos acompanha por um tempo nos mostra caminhos, alternativas, nos traz à realidade ou nos afasta definitivamente dela, nos faz sonhar, vislumbrar novos horizontes.
Algumas dessas pessoas transformam a nossa vida. São alentos para a nossa alma, são como complementos para a nossa existência. Normalmente estas entram suavemente como brisas e em breve se transformam em tempestades, tal o redemoinho que causam em nosso íntimo… a muitas dessas pessoas dizemos que amamos, elas são ou se tornam a razão de nossa vida, “por quem os sinos dobram”, o nosso norte, nosso caminho, nosso porto seguro. E com estes seres iluminados passamos a dividir nossos pensamentos, nossas vontades, angústias, dores, sofrimentos e, principalmente, nossas alegrias… parece que a vida se torna cinza quando um está longe do outro, como se um oceano de tristeza invadisse o coração solitário dos amantes, dos enamorados. Um vazio, este vazio tão conhecido de todos nós, se intensifica e parece se tornar impossível continuar caminhando sem a presença desta pessoa.
No entanto, cada um de nós deve pensar que mesmo quando não estamos na presença de quem mais amamos, os eleitos estão em nós, quando há amor, um completa o outro, um está no outro e jamais quem ama o verdadeiro amor está sozinho. Cada gesto, cada pensamento nos traz a pessoa, nos lembra que por onde quer que estivermos caminhando não serão passos solitários, não existe mais eu ou você… apenas nós, apenas o sentimento de poder enfrentar todas as desventuras, todos os obstáculos, pois não estamos mais sozinhos, estamos fortalecidos pela presença constante do outro.
Até a saudade que sentimos é boa, uma vez que é a personificação de alguém distante. É como dizer: “Em algum lugar alguém pensa fortemente em mim” e você ter a certeza que neste mesmo lugar uma pessoa respira e pensa com a mesma intensidade em você. O amor não nos permite andar sozinhos, somos eternos acompanhados mesmo quando distantes. Amar é encontrar uma solidão que se ajusta à sua e viver uma solidão para sempre acompanhada. “Duas solidões que se completam”, duas vidas que se encontram e se auxiliam, se entendem…
Por: Edi Souza

quinta-feira, 5 de março de 2009

Filme: Minha amada imortal


Hoje posto um trecho de um dos filmes que mais gosto, um texto singular, ímpar, que fala de um amor inigualável, sincero, puro e da dedicação à pessoa amada. O filme Minha Amada Imortal trata da vida de Beethoven e uma suposta paixão do grande compositor. É de uma singeleza incrível... tão singelo quanto o sentimento que permeia tantas ações da humanidade, tão paradoxal quanto este nobre sentimento ao qual denominamos de amor, taõ intenso e tão frágil...


“Meu anjo, meu tudo, minha alma gêmea… Só algumas palavras e a lápis… o teu.
Só amanhã saberei onde ficarei, uma perda inútil de tempo. Por que esta tristeza? Se estivéssemos juntos não sentiríamos essa dor… onde eu estiver estarás comigo. Logo estaremos vivendo juntos e que vida teremos.
A jornada foi horrível, só cheguei aqui às 4 da manhã. Avisaram para não viajar à noite, por causa da floresta. A carruagem quebrou numa estrada terrível, só uma estrada no campo. E estou completamente retido. Mas achei uma outra e logo estaremos juntos, hoje, espero. Tenho de te ver. Por mais que me ames, eu te amo muito mais. Nunca te escondas de mim.”


“embora ainda no leito, meus pensamentos são para ti, minha amada imortal. Alguns alegres, outros tristes… aguardando para ver se o destino vai nos unir… só posso viver plenamente contigo ou não viver. Sim, é como deve ser. Agora tenho de dormir. Tenha calma, amor. Hoje, ontem, anseio até as lágrimas por ti. Tu… és a minha vida… meu tudo… então adeus.. continua a me amar. Sempre teu, sempre minha… para sempre”

domingo, 1 de março de 2009

Vinícius, o poeta de Eros


Vinícius de Moraes, um grande poeta, conhecido no meio literário como “o Poetinha”, nos deixou grande legado literário, soube como ninguém cantar o amor, nos mostrar as diferentes facetas em que o sentimento maior da humanidade se manifesta. Entender Vinícius é chegar perto da dimensão que o amor nos oferece. Eis a literatura a serviço do entendimento de nós mesmos, a serviço de compreendermos o que de real acontece em nosso meio, a nossa volta… a literatura é a arte que nos molda, nos remete a universos distantes, mesmo aqueles que se encontram dentro de nós. Tão perto e tão distantes, ela dá vida aos nossos anseios, desmistifica, nos apresenta a nós mesmos. Poeta eterno, aqui uso este espaço para reverenciá-lo... Vinícius, meu amigo, Vinícius a quem recorro em tantos momentos para por meio de seus versos encontrar tantas respostas e muitas, mas muitas novas perguntas.

Eu não existo sem você

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você.

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você.

Vinícius de Moraes

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Saudade


Hoje um sentimento que assola tantas pessoas espalhadas pelo mundo me invade. A saudade que chega de mansinho e nos traz dor, materializa em nós a ausência, a falta que alguém nos faz, este fator gerando uma tristeza e um vazio intermitente na alma. Este estado de espírito em que me encontro faz com que me recorde de um texto:


Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade de um filho que estuda fora. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã. Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio. Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia. Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada; se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial; se ela aprendeu a estacionar entre dois carros; se ele continua preferindo Malzebier; se ela continua preferindo suco; se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados; se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor; se ele continua cantando tão bem; se ela continua detestando o MC Donald's; se ele continua amando; se ela continua a chorar até nas comédias. Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos; não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento; não saber como frear as lágrimas diante de uma música; não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer. É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos. É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer... Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler.


Autor: Miguel Falabella